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Pesquisa

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Mulheres têm maior potencial de trabalho remoto do que homens

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Postado:

Fonte:

05/04/22

Folha de São Paulo

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Quando a pandemia da Covid-19 estourou com força no Brasil em março do ano passado, a personal trainer Claudia Turco Viceconti, 39, temeu pelo futuro de seu trabalho.

 

Mas acabou se surpreendendo com a aptidão tecnológica de seus alunos, que se adaptaram facilmente às aulas online e com o efeito colateral positivo da crise em sua vida pessoal.

“Ficar em casa foi algo feliz, mas, por um breve momento, houve a tristeza de perceber o quanto os meus filhos sentiam a minha falta”, diz ela, que é mãe de dois meninos, de 9 e 7 anos.

 

Antes da pandemia, Claudia, que mora em São Paulo, conseguia ficar com os filhos na hora do almoço e à noite e, apesar da rotina intensa de trabalho, se sentia uma mãe presente.

 

Mas o período de isolamento —quando demitiu a babá dos meninos— transformou sua opinião sobre o que é conciliar trabalho e maternidade. A nova visão perdura mesmo com o gradual retorno das atividades presenciais.

 

“Ainda mantenho cerca de 40% das aulas online e as concentro em algumas manhãs da semana. Nesses dias, consigo otimizar muito meu tempo, porque não preciso me deslocar”.

Claudia diz que, embora a presença física seja muito importante em seu trabalho, é provável que uma parcela das aulas continue ocorrendo remotamente.

 

Segundo um estudo inédito de pesquisadores do FGV Ibre, a fatia de mulheres com ocupações compatíveis com o teletrabalho e que —como Claudia— têm infraestrutura para desempenhá-lo chega a 22,3% no Brasil. Entre os homens, ela cai para 14,2%.

 

Uma pesquisa recente do Credit Suisse também destacou que o perfil do emprego feminino, mais focado em serviços, favorecerá uma maior inserção das mulheres no mercado de trabalho futuramente.

 

O problema é que, se por um lado, o potencial de trabalho remoto do Brasil pode contribuir, eventualmente, para uma queda da desigualdade entre homens e mulheres, por outro, deve acentuar outras desigualdades.

 

Esse risco é evidenciado pelos recortes que os economistas da FGV fizeram por região, raça e até pela divisão do mercado entre os setores público e privado.

 

“Há o risco de um aumento geral da desigualdade no país”, diz o economista Fernando de Holanda Barbosa Filho, um dos autores do estudo.

 

Os dados mostram que, enquanto o trabalho remoto pode ser realizado por 40% dos funcionários públicos, entre os empregados do setor privado fica em apenas 15%.

 

O potencial de teletrabalho entre trabalhadores brancos e amarelos é o dobro do registrado entre profissionais pretos e pardos: 24,5% contra 12,2%, respectivamente.

 

A dificuldade de acesso entre negros foi percebida pelo Goldman Sachs e o Linklaters, organizadores da iniciativa Lift, que oferece bolsas integrais para que universitários pretos e pardos, de qualquer área, aprimorem o inglês.

 

“Quando a pandemia começou, a Alumni, que ministra o curso, se adaptou rapidamente para o ensino remoto, mas muitos de nossos bolsistas não tinham como continuar acessando as aulas”, diz Talita de Moraes, responsável pela área de serviços ao cliente no Linklaters.

 

Moradora de Sorocaba (SP) e estudante da graduação de políticas públicas da Universidade Federal do ABC, em Santo André, ela havia acabado de ingressar na terceira turma da Lift quando estourou a crise sanitária.

 

​“Estava feliz com a bolsa porque já queria aprimorar meu inglês, mas não sabia se teria condições. Para jovens negros, de baixa renda, como eu, tudo é mais difícil”, diz ela.

 

“Mas logo depois do início do curso, começou a pandemia e eu vivia em uma república, com internet muito ruim e um computador que havia quebrado há pouco e que eu não tinha como consertar”, conta a estudante.

 

Para possibilitar a participação de bolsistas como Gabriela, os organizadores da Lift levantaram uma rodada de recursos extras com as empresas que patrocinam o programa para viabilizar equipamentos e chips de internet aos alunos.

 

A Fundação Tide Setubal também percebeu, durante a pandemia, como a barreira tecnológica afetava severamente os moradores do Jardim Lapena, bairro da zona leste de São Paulo, onde a instituição tem forte atuação.

 

“Muitos jovens e adultos procuraram o Galpão ZL, onde realizamos nossas atividades, pedindo acesso à internet e a computadores para poder continuar estudando ou trabalhando”, diz Viviane Soranso, coordenadora do programa de raça e gênero da fundação.

 

A instituição desenvolve projetos com foco nas desigualdades socioespaciais relacionadas a gênero e raça. Sua iniciativa mais recente foi a criação da plataforma Alas.

 

Voltado para negros, o programa trabalha com três eixos: formação para inspirar jovens de 16 a 24 anos a buscar trilhas de liderança; bolsas para graduação e mestrado em instituições de ensino superior; e apoio financeiro de até R$ 15 mil para profissionais já estabelecidos que queiram aprimorar competências e habilidades.

 

“A ideia é que a plataforma possibilite uma ação coletiva para a formação de lideranças negras”, diz Soranso.

 

Ela afirma que, no entanto, também são necessárias políticas públicas em diversas áreas, incluindo democratização da internet e melhoria da infraestrutura.

 

“São problemas que a iniciativa privada e o terceiro setor não conseguem resolver sozinhos”, afirma.

 

Talita de Moraes, da Linklaters, ressalta que, se por um lado, a pandemia escancarou desigualdades, por outro, permitiu a criação de novas oportunidades. Pela primeira vez as bolsas da Lift —que, além de inglês, englobam mentoria e outras formações complementares— serão oferecidas, por exemplo, em outras três capitais (Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Salvador). As inscrições estão abertas até a próxima terça (19).

 

“Só será possível expandir a iniciativa, mantendo a qualidade e a metodologia do programa, porque as aulas serão remotas”, diz Moraes.

 

 



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