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Transformadores

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Postado:

Fonte:

05/08/22

Somos Diversidade

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Sou Mestre e Doutora em Psiquiatria e Psicologia Médica / Community Support Adviser UNAIDS. Quando a vida pessoal e a acadêmica se complementam, posso assim dizer, que o conhecimento empírico, pautado em minhas vivencias, foram pra mim o combustível pessoal para a realização dessa tese. Há 18 anos, quando descobri após um estupro, ter sido contaminada pelo vírus do HIV, a falta de informação e recursos disponíveis para lidar com o preconceito e com as angústias de portar uma doença incurável e transmissível, além do estigma que carregava desde a infância por ser mulher transexual, iniciou-se assim uma das jornadas mais perigosas da minha vida, e que não posso deixar de falar que foi graças ao programa de Narcóticos Anônimos que consegui a 12 anos me libertar do crack, algo que certamente impediria qualquer um dos sonhos que já realizei, e dos que ainda almejo realizar, ser possível de ser perseguido. Uma luta que se iniciou por mim, e passou a ser para mim, motivo de inspiração e realização pessoal. Apesar da formação em Pedagogia, outra conquista penosa, (pois para a maior parte das pessoas, frequentar a escola é algo normal, para mim, era fugir de espancamentos constantes, de discriminação sofrida por parte de colegas, professores e até mesmo dos dirigentes de escolas), me vi encontrando espaços para o trabalho em Comunidades Terapêuticas, depois pude fazer alguns trabalhos em um Centro de Infectologia em uma cidade litorânea, com pouquíssimos recursos, mas que me fizeram expandir meus conhecimentos a cerca da área que me encanta e me inspira no campo da pesquisa. Mas que também não foi pelo amor, trabalhando nesse centro, tive a possibilidade de acompanhar vários casos de perto, e perceber uma forte relação entre a mortalidade por AIDS e o uso de substâncias, presenciei a morte de muitos amigos, que me mostravam que a AIDS precisava ser combatida primeiro no estigma, que o preconceito em torno da AIDS, era o que impedia essas pessoas de engajarem-se em tratamento para a dependência química, e consequentemente para o controle da HIV. Participei de campanhas de testagem extramuros e compartilhei conhecimento e experiência com técnicos de Moçambique que vieram conhecer as campanhas de ampliação de testagem e otimização dos recursos disponíveis para tratamento. Mas o sonho de entrar na carreira acadêmica e a descoberta do sonho mais caro, de me tornar uma pesquisadora, aconteceu a partir de dois acontecimentos, o primeiro foi conhecer meu marido Leonardo de Paiva, que era estudante de ciência e tecnologia pela Universidade Federal do ABC, e tinha uma dedicação ímpar aos estudos, era aluno de iniciação científica e tinha uma mente brilhante. Ao qual admirei com todas as minhas forças. Ele me proporcionou os momentos mais belos que um relacionamento afetivo poderia ter, e me estimulou a continuar estudando e jamais parar, ele acreditava no meu potencial e não media esforços pra me ensinar tudo que sabia. Em meio a todos esses novos desafios, deixei a cidade onde vive minha mãe e a maior parte dos meus irmãos, e junto do Léo, iniciei uma nova etapa da minha vida, que teria sido perfeita, não fosse o suicídio dele em 2015, um mês antes de concluir a especialização. Apesar de nesse momento estar passando pela dor mais lancinante que já pude enfrentar, o mestrado em Psiquiatria e Psicologia Médica na Escola Paulista de Medicina, pessoas maravilhosas que conheci e que me apoiaram nesse processo me deram um sentido para continuar seguindo em frente, buscando mais conhecimento e quase sem querer conseguindo explicações para quase todos os questionamentos que me causavam tanta dor. O trabalho que realizava no CRATOD em São Paulo fizeram com que pela primeira vez um serviço brasileiro fosse chamado a compartilhar uma experiência exitosa no 43 Programme Coordinating Board da ONU, o que me fez seis meses depois receber um convite para ocupar um cargo oficial no UNAIDS Brasil. Enfim, conheci através da Ciência a voz de um Poder Superior que ofereceu amparo e me devolveu os sonhos, sem nenhuma explicação dogmática, ou conjecturas perturbadoras sobre céu e inferno, simplesmente porque, através da Ciência poderei contribuir com a vida, melhorando o estado de saúde das pessoas, oferecendo esperança e dignidade. Bem como a Ciência um dia fez por mim, tornando real o meu corpo de mulher, e o conhecimento tão necessário para cuidar de quantos precisem. Quais as maiores conquistas e os maiores desafios em sua vida/carreira? A maior conquista também foi o maior desafio que é ter conseguido ajudar pessoas iguais a mim, que saíram da Cracolândia em São Paulo e hoje estão livres das drogas e vivendo uma vida com cidadania plena e reconquistaram a dignidade. Ser uma pessoa trans foi dificultador ou não teve importância nesta sua trajetória? Sempre foi um dificultador, hoje pela primeira vez, trabalhando na ONU, entrei em um lugar que eu não era a primeira e nem a única pessoa trans no local. Para as pessoas e profissionais trans, que recado você deixaria? Dê o teu melhor! Você é responsável pela porta aberta que a empresa vai deixar para que outras pessoas ocupem esse espaço quando você crescer ao ponto de não caber mais aí. Para a sociedade, qual recado você deixaria? Perde muito, todo aquele que acha que as pessoas são iguais, a graça da vida esta na diferença, naquilo que eu me surpreendo em conhecer para além das aparências. INSTAGRAM FACEBOOK LINKEDIN



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