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Transformadores

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Post 181

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Postado:

Fonte:

05/08/22

Somos Diversidade

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Sou programadora. Costumo dizer que nasci em meio a livros e computadores, tive o privilégio de ter acesso a computadores já na década de 80, quando eu ainda era criança e ter o apoio do meu pai, que me comprava livros e revistas de programação para que eu brincasse. Como sofria muito bullying, eu preferia mesmo brincar sozinha. Na terceira série do ensino fundamental, a diretora pediu para que me mandassem para uma escola de crianças especiais (ela não usou esse termo, mas não vou repetir aqui), por conta de eu não estar acompanhando a turma, e eu ainda não sabia escrever, mesmo lendo muito bem, naquela época não se falava de bullying, autismo, dislexia etc, Comecei a trabalhar cedo, lavava estofados de carros, mas logo descobriram que eu poderia ajudar mais com as contas da empresas, assim comecei a criar planilhas de controle financeiro, custos e precificação. Cursei técnico em eletrônica, onde tive contato com programação de baixo nível e criação de mini computadores, pude ter uma visão ampla de todo o processo computacional, o que facilitaria meu aprendizado posterior. Claro, mesmo em meio a muito bullying, que durou até minha formatura em 99. Aos 19 anos eu fui emancipada legalmente para abrir minha primeira empresa, claro, de programação. O meu sonho era levar o mesmo potencial dos grandes softwares para o pequeno empresário, com preço acessível, mas não foi muito bem recebido pelo mercado que ainda considerava isso dispensável e muito mais trabalhoso do que só anotar num papel. Abrimos outra empresa, a convite de um amigo, e criamos um sistema para rastrear a internet em busca de produtos com potencial de importação e exportação, o que foi um sucesso e conseguimos ajudar empresa aqui do interior a realizarem suas primeiras exportações. Cursei administração de empresas, sempre pensando em aprimorar minha habilidade de ajudar negócios com tecnologia. Foi nesse momento quando finalmente tive o diagnóstico de dislexia, finalmente aprendi a escrever e não parei mais, hoje tenho 17 livros escritos, sendo quatro publicados. Cheguei a ser a aluna com a maior média de notas, mas infelizmente foi uma época de baixa de serviços aqui no interior, não consegui os recursos e fui expulsa por falta de pagamento, faltando um semestre para a formatura. Passei a prestar serviços de consultoria, fizemos projetos em mais de 60 empresas, desde cultura organizacional, sistemas de qualidade, até criação de softwares muito específicos. Voltei a abrir novas empresas, desenvolvedoras de games, de sistemas de educação remota, criador de sites e até uma editora. Abri um grupo/site chamado T-factor, onde estávamos construindo cursos para pessoas trans, comecei estudar filosofia, com ênfase em filosofia da mente e inteligência artificial, mas minha jornada seria interrompida. Um grupo extremista fundamentalista religioso, que era muito forte na cidade, “descobriu” que eu era trans, quiseram me converter de todas as formas, e quando neguei e passaram a fazer todo tipo de perseguição, o que culminou com o fim de 97% de todos os contratos que eu tinha. Em seguida, um grupo radical feminista “descobriu” que além de trans eu era lésbica, o que foi inaceitável e começou um ataque gratuito, massivo, recebi centenas de mensagens horrendas de como eu era nojenta, “estuprador de lésbicas”, “macho de saia”, como eu deveria morrer de forma horrível. Comecei a receber ameaças reais, com fotos da minha casa e até do meu cachorro, por isso abandonei a internet. Passeia trabalhar “escondida” através de frelancer online, com artes digitais e programação, sem nenhum tipo de contrato, sem nem saber se eu receberia pelo trabalho, muitas vezes não mesmo. Fiquei muito mal, fui diagnosticada com esquizofrenia, passei anos tratando, até receber alta e passar para o processo de diagnóstico de autismo I adulto, que ainda está em analise. Esse ano, juntei o pó do pó, voltei a estudar, programação claro, tive o privilégio de passar em duas seleções com dezenas de milhares de candidatos, primeiro para uma bolsa de estudos em programação junto ao Ifood e Cubos Academy, e logo depois no programa de acesso Start Tech da Ambev Tech, uma empresa fantástica, onde trabalho hoje com o que eu gosto. Foi uma longa e dura jornada, mas só vai melhorar. Você também consegue e conte comigo! Quais as maiores conquistas e os maiores desafios em sua vida/carreira? Os maiores desafios são enfrentar o medo(baseado em preconceito) que muitas empresas ainda possuem em contratar pessoas trans, ele tem medo que os funcionários reclamem, de boicotes de clientes, medo de que nós sejamos “loucas”, medo de que não vão nos respeitar numa função de liderança, e muitos outros preconceitos, tudo isso eu ouvi procurando por empregos. A maior conquista, como pessoa trans, foi ter sobrevivido a tudo, com a chave do conhecimento, sem ter desistido de ser quem sou, e ter tido o privilégio de continuar viva para ver que hoje as coisas estão começando a mudar. Ainda falta muito para a gente estar no mesmo patamar dos outros cidadãos, assim como ainda falta para a mulher, para as pessoas pretas, para PCD etc. Esse é nosso desafio, não queria que fosse assim, mas já que é, vamos enfrentar juntes. Ser uma pessoa trans foi dificultador ou não teve importância nesta sua trajetória? Como podem ver na minha história, chegou a ser mais que um fator dificultador, foi algo impeditivo que realmente chegou a me excluir do meio social e teve potencial de risco de vida real. Felizmente, daqui para frente, talvez esse fator ainda faça a diferença, mas agora como algo positivo. Para as pessoas e profissionais trans, que recado você deixaria? Primeiro, sempre lembrem dos que lutaram por nós no passado, que morreram nessa luta, para que pudéssemos estar aqui hoje. Lembrar e entender o passado, para que a gente não caia nos mesmos erros com outros grupos diferentes do nosso e principalmente para não acabarmos nos aliando a ideologias que perseguiram nossas predecessoras. Segundo, infelizmente, ainda temos que entregar 120% a mais que qualquer outra pessoa para termos reconhecimento, então estudem muito, aprendam a aprender, estudem como puderem, sempre se atualizem, não só com habilidade técnicas, como saber programar, mas com as soft skills, saber se comunicar, trabalhar a inteligência emocional, comunicação não violenta, muita empatia e outros. Lembre-se, se você não se atualizar, vai acabar trabalhando com empresas e pessoas que também não se atualizaram, nem na forma de tratar as pessoas, principalmente pessoas como nós. Por último, ajude! Se você subir um degrau, ajude o próximo a subir, se estiver numa empresa ajude a aumentar a diversidade e consciência da mesma, espalhe a palavra do amor ao próximo, nunca pense que já venceu na vida, precisamos estar juntes, fortes, para não haver retrocesso. Para a sociedade, qual recado você deixaria? A missão de um mundo melhor não é uma luta de quem sofre, é um luta de todos, pois estamos no mesmo barco e não existe plano B. Fazer o mundo melhor para o próximo é fazer o mundo melhor pra si e para todos. O primeiro passo é se reconhecer como causa da grande maioria dos problemas, todos temos parte nisso e não basta só dizer “ah, eu não tenho preconceito”, é preciso agir, é preciso censurar a piada do colega, é preciso apoiar os movimentos, apoiar os projetos sociais dos governos e das empresas, só façam, vão ver como é muito mais prazeroso do que todo e qualquer ódio. MEU SITE INSTAGRAM



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