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Transformadores

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Post 49

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Postado:

Fonte:

05/08/22

Somos Diversidade

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Sou graduada em Jornalismo e Artista independente. Sou filha de pescadores do sul de Santa Catarina e desde o início de 2015, quando iniciei a graduação em Jornalismo, passei a trabalhar com redação, fotografia e outros campos da comunicação e da arte. Sou cantora desde muito pequena e hoje estes dois campos caminham juntes formando minha identidade profissional de Artista e Comunicadora. Trabalhei alguns anos em empresas de educação e tecnologia, já participei de bandas e cantei em diversos eventos, como cerimônias de casamento, aniversário, festas e eventos corporativos. Hoje sigo carreira solo e trabalho de forma autônoma 🙂 Quais as maiores conquistas e os maiores desafios em sua vida/carreira? Com certeza grandes conquistas minhas foram ter sido contemplada com uma bolsa integral do ProUni e ter conseguido concluir minha graduação em Jornalismo. Este foi, inclusive, o período em que consegui me libertar de uma visão cristã a qual nasci e cresci e me reconhecer enquanto parte da comunidade LGBTQIA+. Outras conquistas que pra mim são importantes são minhas composições. Acredito que cada música que nasce é parte da concretização do meu grande sonho de ser Artista. Os maiores desafios, primeiramente durante a graduação, foram conseguir conciliar trabalhos informais e formais, a depressão, a independência financeira dos pais e os estudos. Fora desse campo, ainda enfrento desafios de viver em uma cidade sulista extremamente conservadora e transfóbica, que faz questão de todos os dias me atribuir uma vergonha a qual não me pertence. É um desafio enorme caminhar nas ruas e sentir respeito ou não ser motivo de piada e olhares constrangedores. Ainda é um desafio lidar diariamente com o machismo e a transfobia que nos incapacita na medida em que somos assediadas e perseguidas num simples trajeto de trabalho-casa ou mesmo dentro de instituições e empresas. Mas tenho certeza que hoje mais do que nunca estamos unides e atentes <3 Ser uma pessoa trans foi dificultador ou não teve importância nesta sua trajetória? Com certeza ser uma pessoa trans foi e é um processo tanto para mim quanto pra quem me conhece há bastante tempo, incluindo família, amigos e outras pessoas próximas (ou não). Principalmente quando se nasce e cresce em um ambiente conservador cristão, que não só nega a nós a existência mas diariamente nos impõe que o que somos ou “pensamos ser” não é certo/limpo/digno/aceitável diante dos olhos de Deus e da sociedade. Por toda a minha vida ouvi e vivenciei situações de violência psicológica e em alguns casos física a respeito de quem eu sou e, principalmente, quando passei a me reconhecer enquanto uma pessoa trans. Especialmente a partir disso que as situações se tensionaram ainda mais. Mesmo me identificando como trans não binária em um espectro feminino, cada vez que essa feminilidade se tornava aparente eu era negligenciada, excluída ou deslegitimada. Passei a receber outros tratamentos e discursos de pessoas que julgavam me conhecer e “saber o que é melhor pra mim”. Sofri perseguições de cristãos que me importunavam nas redes sociais e a todo instante se colocavam no papel de mostrar à minha família tudo o que eu fazia, com quem eu me relacionava e os lugares que eu frequentava. O número de assédios aumentou de forma tão brusca que, com os recorrentes acontecimentos, passei a temer andar na rua sozinha e a depressão, que já existia a muito tempo, passou a tomar conta de mim com muito mais intensidade, a ponto de me incapacitar de frequentar lugares, trabalhar de forma produtiva ou mesmo ter contato com quem eu gosto. Para as pessoas e profissionais trans, que recado você deixaria? Que cada dia mais busquem conhecimento, educação e acolhimento onde há amor, reciprocidade e compreensão. Se dentro de um sistema capitalista o que garante dinheiro e sucesso é mérito, que possamos mostrar para a sociedade que não só somos capacitades como somos diverses. Que possamos cada vez mais renegar o subemprego e a marginalidade do trabalho e das relações, que sejamos vistes não só pelas pessoas mas por nós mesmes. Que cada uma de nós busque autoconhecimento, autoacolhimento e muita sabedoria para lidar com um mercado de trabalho extremamente transfóbico e falsamente inclusivo. Há muitos progressos, mas acredito que ainda em um sistema capitalista não temos muita chance de sucesso porque este sistema, por si só, será sempre excludente e baseado em exploração das minorias, tratando a diversidade como um status e não como uma política pública. Ressignificação. Convido a todes que recorrentemente analisem de forma profunda o que consomem, desde alimentos e vestimentas até o vídeo que compartilhamos nas redes sociais ou as músicas que ouvimos. Quantas pessoas trans você segue no instagram? Quantas autores trans você lê na faculdade? Quantas pessoas trans fazem parte da sua família e dos seus amigos? De quais e quantas pessoas trans você assiste vídeos, ouve as músicas ou paga por algo artístico? É urgente que, mesmos nós trans, reflitamos sobre o que nossos olhos veem, nossos ouvidos escutam e nossa boca compartilha. A quais discursos damos credibilidade? O mundo e o Brasil está cheio de pessoas trans artistas, profissionais, criadores, mas que não chegam perto do alcance e do dinheiro que recebem pessoas que, em sua grande maioria, não entendem nossas lutas nem sequer fazem parte da comunidade. Que nas paradas LGBTQIA+ e em outros lugares possamos parar de abrir palco pra pessoas cisgêneras e heterossexuais compulsoriamente. Que possamos parar de endeusar pessoas cisgêneras “lgtb friendly”. Somos uma comunidade e precisamos de representatividade real e efetiva, que seja de nós para nós. Há inúmeros artistas e influenciadores que não fazem mais do que sua obrigação a respeito das nossas lutas mas que muites de nós damos mais visibilidade do que a quem deveríamos dar. Que consigamos pensar a respeito e provocar mudanças estruturais, primeiramente, a partir das nossas vivências. Para a sociedade, qual recado você deixaria? Que não só procurem diversificar os locais de convivência, trabalho e lazer, mas que passem a se importar com as nossas vidas e lutas. Que nos locais de lazer sejamos respeitades, que tenhamos acesso a serviços públicos e privados de forma respeitosa e que promovam nossa dignidade. Que nas escolas possamos sentir segurança desde a infância e que os nossos relatos de violência não sejam negligenciados ou vistos como desnecessários. Que no mercado de trabalho as empresas não só atribuam vagas exclusivas para pessoas trans, mas que passem a compreender nossa realidade afim de não depositar em nós expectativas irreais. Que passem a compreender que nossa comunidade ainda ocupa a informalidade, a prostituição e a não qualificação profissional, e por isso vagas destinadas a nós tenham sua régua abaixada, pois não temos os privilégios da cisgeneridade em todos os campos da vida. E que dentro desses locais não sejamos uma “enciclopédia da diversidade”, pois deve ser dever da empresa fomentar a diversidade horizontalmente, assumindo o papel de agente de mudança e não jogando para nós a responsabilidade de não só trabalhar e ser produtiva, mas de sermos professores de pessoas adultas com acesso ao conhecimento e esclarecimento. INSTAGRAM MEU  CANAL NO YOUTUBE



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