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Transformadores

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Post 106

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Postado:

Fonte:

05/08/22

Somos Diversidade

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Sou formada em Direito, pós graduanda em Negócios Imobiliários, meu cargo atual é de Consultora Sênior e sou por profissão Advogada. Comecei a trabalhar muito cedo, aos 13 anos, para comprar materiais escolares legais e não onerar meus pais; durante algum tempo trabalhei em comércio cujos os donos eram familiares. Algumas vezes para focar mais nos estudos, saia, mas o relevante é falar quando esta trajetória inicia com a minha percepção de corpo dissidente. A expectativa de quem faz direito, familiares e amigues, parte daquela carreira ortodoxa que fica em nosso imaginário: escritório, advogades, roupas formais como terno, gravata, blazer. Até conseguir acessar este ambiente demorou um pouco: não graduava em universidade denominada como ‘primeira linha’, o silenciamento e demais atravessamentos dos tentáculos do racismo estrutural vieram na prática, já que os estágios quando surgiam, há 20 anos atrás, não era para acesso aos grandes escritórios, minha função ficava restrita a de circular os fóruns de 3 a 4 cidades diariamente, sem poder exercitar meu sonho que era escrever. Mesmo assim era uma felicidade: usava roupas bacanas e estava realizando um sonho. Este sonho logo começa a mudar quando começo a buscar minha autenticidade: frequentava a área central LGBTI+ da cidade, me montava aos finais de semana e, a expressão de gênero bate à minha porta: as roupas bacanas do trabalho já não eram mais tão bacanas assim – começo a ter os primeiros questionamentos: sobre dress code mais flexível. O foco neste momento era a aprovação na OAB no primeiro exame e orgulhar meus pais, uma vez que não queria festa de formatura. Deixo o escritório quando me comunicam que mesmo com a carteira da Ordem em mãos não seria efetivada. Já com a carteira da ordem em mãos, busco entrar nas empresas multinacionais. Logo, por intermédio de empresa terceirizada, acesso uma grande empresa de telecomunicações para um projeto que duraria 6 meses com possibilidade de efetivação. Fico nesta empresa por quase 10 anos, passo por uma ruptura familiar e ali a pergunta determinante da minha vida se apresenta, e eu preciso me movimentar para respondê-la: “Como ser uma travesti num ambiente corporativo?” Durante estes 10 anos começo a transicionar: deixo o cabelo crescer, fases de hormonioterapia, laser, flexibilização do dress code e recorro a cirurgias durante as férias. As respostas àquela determinante pergunta começam a desenrolar e florescer quando migro de empresa num processo de BPO (Business Process Outsourcing) para uma empresa multinacional de consultoria, que divulgava como atrativo, práticas de Diversidade e Inclusão. Em novas férias, coloco próteses de silicone e trabalho durante 1 ano utilizando um binder, coberto com sutiã cirúrgico e 2 agasalhos alternados, independentemente se fazia frio ou calor – Sim, mesmo nesta empresa inclusiva, me pegava com o medo do risco de perder o emprego e não ter um ninho para voltar. Até que estavam por vir novas férias e uma mistura de sentimentos: incômodo – por ter que esconder diariamente a minha verdadeira identidade travesti, empoderamento – por estar em liderança de uma equipe, deter conhecimento profissional, observar o movimento das empresas em inserir corpos trans nas empresas e uma discussão na sociedade civil provocada pela novela “A Força do Querer” em torno do personagem Ivan, me fizeram enfrentar a situação e conversar com a área de Diversidade e Inclusão da empresa. O que aconteceu a partir deste momento foi algo incrível: a empresa absorveu e internalizou a minha necessidade, contratou uma empresa de consultoria externa, conversou com toda a liderança por 2 dias sobre vieses inconscientes e ao final comunicou sobre minha reintegração transicionada, com os conflitos e situações de não pertencimento que vivia nos últimos anos. Volto reintegrada ao ambiente de trabalho, demoro ainda uns 40 dias para me empoderar do meu próprio corpo neste ambiente, mesmo que fosse meu sonho e resposta da pergunta que procurei por tanto tempo – na minha concepção, o ideal era retornar para um ambiente completamente diferente que ninguém me conhecesse, o que não foi aceito pela minha liderança, valorizando a construção do meu lado profissional de tantos anos e dar real sentido a minha inclusão e inserção dentro do ambiente. E assim sigo nos últimos anos, neste ambiente, em liderança de equipes, de reuniões, com apresentação de propostas, no auxílio para melhoria de processos, entrega de resultados, na construção das carreiras dos meus liderados, transformando visões que enxergam meu profissional sempre à frente, mas que eu nunca me esqueça que sou profissional transgênera, negra, mas também não sou e estou somente reduzida a isso, sou advogada, sou filha, sou tia, sou voz, sou instrumento de coletividades que atuo, sou fruto de tantas bagagens que acumulei e que tenho trabalhado para representar e explorar, nestas vivências que só fazem sentido enquanto coletivas, o quanto isso significa no mundo corporativo, com suas contribuições na nossa sociedade civil, reverberando esta voz para ampliar com outras vozes e chegar a novos ambientes. Quais as maiores conquistas e os maiores desafios em sua vida/carreira? A maior conquista é a garantia da minha autenticidade, não precisar mais esconder minha identidade de gênero, minha corporeidade e, também as conquistas coletivas, da inserção de outras pessoas transgêneras no ambiente que eu trabalho e em locais que sou convidada a falar sobre a importância e ganhos da Diversidade e Inclusão. No meu caso os desafios foram durante os 40 primeiros dias enquanto não estava empoderada da minha própria corporeidade dentro do ambiente de trabalho, eram as novas situações cotidianas de quem é reintegrada dentro de um ambiente, coisas que hoje vejo que são extremamente pequenas, se comparado a vivência é coletiva, que os desafios e opressões são muito mais amplas, e contemplam garantir a inclusão e inserção de outros corpos trans dentro do ambiente de trabalho, com efeitos interseccionais de raça e classe num país extremamente desigual. Ser uma pessoa trans foi dificultador ou não teve importância nesta sua trajetória? No meu caso, considerando ser uma pessoa reintegrada, as pessoas conheciam a performance e potencialidade do meu trabalho que contemplava ascensão em carreira e resultados, então não posso dizer que tiveram dificultadores. Não posso dizer que tiveram dificultadores, e sim desconhecimento a situações fáticas e cotidianas que tive que exercer um papel muito didático sobre a forma que as pessoas teriam que mudar e enfrentar, considerando que na empresa fui a primeira pessoa trans em toda América Latina. Isso na verdade somente agregou e ajudou a me empoderar e ampliar meu olhar para coletividade Para as pessoas e profissionais trans, que recado você deixaria? Para as pessoas trans o recado que eu deixo é quanto ao conhecimento – algo que adquirimos e ninguém nos tira; é sobre não desistir, seguir objetivos, ampliar olhares para o constante aprimoramento e estudo, seja qual for a sua profissão, aprimore-se para agregar valor na sua carreira e na sua vida. Entre em grupos coletivos, cursos gratuitos, para explorar e descobrir suas potencialidades. .A estrutura da sociedade está muito longe de termos um modelo ideal, mas há esforços para o início da mudança e que partirá necessariamente da inclusão e inserção dos grupos minorizados, em composição de todos os ecossistemas, por isso é tão necessário ocuparmos espaços e transformá-los. Para a sociedade, qual recado você deixaria? A sociedade e nossos aliados precisam entender que temos demandas muitos específicas se comparadas aos demais grupos minorizados e precisamos muita atenção e cuidado no preparo de ações que são realizadas em prol da comunidade transgênera. Importantíssimo todos os trabalhos coletivos que são realizados em prol da população da nossa comunidade, porém não deixem de incluir estas pessoas trans na organização e planejamento. Estas pessoas sabem como trabalhar nossas principais demandas que por vezes ainda são muito básicas e passam pela falta de afeto, acesso e reconhecimento da nossa dignidade humana. E considerando que nossa comunidade é múltipla e diversa, necessário conhecer que há muita potencialidade a ser explorada e apta a ingressar em todas as esferas, cargos e funções do mundo corporativo; profissionais com amplo conhecimento e muito estudo dedicado, empresas especializadas na recolocação destes profissionais que poderão dar suporte em diversas fases, etapas, com conscientização para que se efetive uma inserção com qualidade e respeito. INSTAGRAM FACEBOOK LINKEDIN



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