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Transformadores

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Postado:

Fonte:

05/08/22

Somos Diversidade

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Sou professor universitário. Tenho graduação em filosofia e pedagogia. Tenho mestrado e doutorado em Educação – Professor Educação Básica – Educação infantil/ Fundamental Waldorf/ Ensino Médio. Comecei a atuar como professor durante a trajetória acadêmica. Cursei Filosofia como primeiro curso e era eventual pelo Estado de São Paulo, no município que eu estudava. Escolhi ser professor, mas admito que a primeira escolha foi conseguir sair de casa. Sou da capital de São Paulo e consegui passar em uma universidade pública a mais de 400km de distância da capital. Não pensei duas vezes em realizar esse deslocamento. Não venho de uma família de muitas condições financeiras, já trabalhada desde os 14 e sabia que seria difícil me manter longe de “casa”, mas também sabia que seria, naquele momento, a melhor oportunidade que teria para pensar em ter uma carreira profissional. Vivia de bicos e percebia que não teria a regalia de permanecer por mais muito tempo no ambiente familiar. Consegui passar em uma universidade pública e adentrei com 20 anos. Fui com um colchão e umas roupas, mas fui! (até então me reconhecia como lésbica) Sempre me mantive nos estudos por conta das bolsas, tanto científicas como de extensão. Terminada a graduação, dei continuidade a profissão de professor e por incentivo de um professor da universidade, criei coragem e prestei o mestrado. Nunca imaginei que eu poderia passar em um mestrado público, não porque eu não conhecesse ou mesmo acreditasse em meus estudos, mas porque eu via que a pós não era para pessoas como eu. Mas passei! Dei continuidade aos estudos e trabalho, passando em um concurso público em 2013, mesmo ano em que havia retornado para a capital e já trabalhava como categoria “o” em 5 escolas públicas de São Paulo, tendo finalizado a dissertação em 2012. Em 2014 retorno para o município que eu já havia realizado o mestrado para dar início ao doutoramento e aguardar a chamada para assumir como professor efetivo, trabalhando ainda como categoria “o”. No meio do ano de 2014 assumo em uma escola do distrito vizinho, com boa parte dos/as estudantes provenientes do rural. Terminei o ano de 2014 com 2 cargos e realizando o doutorado. (aqui, já havia me reconhecido, inclusive publicamente, como pessoa transmasculina) Durante o doutorado mantive o concurso e fiz pedagogia, visando outras possibilidades profissionais. Assim, em 2018, após defender a tese, ingresso em outro concurso como professor de Educação Infantil no município. Durante todo esse trajeto, tentei inúmeras vezes adentrar em faculdades particulares, bem como em escolas privadas, sempre sem êxito. Eu era chamado, e ainda sou, para realizar palestras e cursos formativos, mas nunca componho o corpo docente da instituição. Por volta de 2018 uma faculdade começou a me chamar para realizar algumas aulas esporádicas, tanto na graduação como na pós. E em 2020, após um longo processo seletivo, me tornei professor de uma escola Waldorf também alocada no município que resido. Paralelamente, ou melhor, transversalmente, a esse panorama institucionalizado de profissão, não deixei de atuar como pesquisador, realizando pesquisas, artigos e capítulo de livro a respeito das temáticas e estudos que realizo na área da educação. Quais as maiores conquistas e os maiores desafios em sua vida/carreira? Minha carreira está intrinsicamente atrelada ao trajeto de meu reconhecimento enquanto trans. Foi através dos estudos que consegui me olhar e me compreender enquanto pessoa trans. Nesse sentido, acredito que um primeiro desafio de vida tenha sido esse reconhecimento, que veio “tardio” dada as dores e incômodos internos e violências externas que comumente ainda atinge nossa comunidade. Consegui compreender a mim mesmo durante o transito do doutorado, já com 30 anos de idade. Assumi a mim mesmo e não abri mão de lutar e permanecer nos espaços que já me encontrava. Terminar o doutorado como pessoa trans foi um marco em todos os aspectos de minha vida e consequentemente de minha carreira. Um outro marco que pretendo que se torne uma conquista diz respeito ao reconhecimento de meu nome social em um dos meus cargos, o de professor da Educação Infantil. O município que atuo não me reconhece enquanto pessoa trans, utilizando, até o momento, de meu nome de registro. Foi necessário entrar com um processo que ainda tramita e que mesmo tendo ganhado em primeira instância, não foi suficiente para que eu tenha meu nome dignamente respeitado. Noto que os desafios são inúmeros, já pela carreira de professor, ainda mais atrelada as questões de transfobias que usualmente ocorrem como se fossem “normais” e que tivéssemos que compreender a frustração alheia por “até respeitarem”, mas acreditarem que podem “não aceitar”, quem somos, como se tivessem essa possibilidade a respeito das nossas vidas. Há também todo o receio das instituições por ter um professor trans. “Como as famílias vão lidar?” ” O quanto eu vou influenciar as crianças a não serem normais (cisgêneras e heterossexuais)?” E, por fim, todas as violências que já geraram em entrevistas de emprego, que se tornam momentos para tentar sanar curiosidades sobre meu corpo, se sou operado, se vou operar, o que acontece e como fica o corpo com hormônio e coisas do tipo. Acredito, no entanto, que as maiores conquistas que tenho até então na carreira, foi me formar com uma pesquisa muito bem amparada cientificamente, ter conseguido me alocar em dois cargos públicos e agora caminhar mais um pouco para uma pedagogia que vejo ser mais coerente com o que busco profissionalmente enquanto trabalhador. Ser uma pessoa trans foi dificultador ou não teve importância nesta sua trajetória? Não tenho dúvidas que se eu não me reconhecesse enquanto pessoa trans eu teria inúmeras portas abertas, mesmo se me encontrasse na categoria de mulher cisgênera branca. Mas também vejo que me reconhecer enquanto trans e me pensar nessa sociedade e em meu território de vida, também me faz ter um olhar e presença que vejo como frutífero para as transformações sociais que ainda acredito sermos capazes de realizar como sociedade. Para as pessoas e profissionais trans, que recado você deixaria? Eu sei que é difícil e muitas vezes muito pesado cada passo que realizamos em busca de nossos sonhos e desejos, mas não deixe de caminhar. Quando for necessário, por forças maiores, parar, não deixe de acreditar! Essa é uma das lutas mais pesadas para a nossa sobrevivência, mas é imprescindível para podermos alcançar um viver. Não é justo, não está certo, mas não nos matarão! Resistiremos e traremos outras maneiras, maneiras mais honestas, de viver, de ser feliz, de amar, de compartilhar o nosso tempo de vida! Vejo importância da comunidade trans do Brasil, mesmo sendo tão rica em diversidade e multiplicidades de vidas, ter mais possibilidade de existência dentro das políticas públicas de acesso primário e políticas representativas. Dado o descaso recorrente e contínuo, é mais que urgente políticas afirmativas para a manutenção de nossa existência. Aqui, não cito apenas as transgeneridades binárias. Portanto, da mesma maneira que buscamos o reconhecimento de nossas vidas enquanto cidadãs e cidadãos de nossa território, é importante, a meu ver, nossa comunidade também se atentar para as marginalizações que ocorrem em nossos meios, no que diz respeito a legitimidade dos corpos trans não bináries e também das transmasculinidades. Para a sociedade, qual recado você deixaria? A sociedade é um conceito muito genérico quando todo o sistema nos atinge por completo. As pessoas precisam se atentar que a manutenção desse sistema é violenta conosco, e o sendo, é também com todo o restante. Quando somos privados/as da existência, estão privando também a si mesmos/as, estão aceitando que só “merecedores/as” podem ocupar espaço digno de existir, mas esses/as merecedores/as tem um padrão e esse padrão, que é utilizado para nos violentar, é o mesmo que violenta praticamente toda a nossa população. A diferença é que conosco é escancarado e com boa parte da sociedade, já se tornou sutil. Portanto saibam que, enquanto sociedade, quando nos violentam, estão apenas sendo o braço opressor de um sistema que oprime também à vocês! Não estão sendo mais do que nós. Na minha leitura, estão sendo frágeis e fracos/as. Não deixaremos de existir e resistiremos com nossas vidas, porque somos nós, somos assim, somos de várias maneiras, temos vidas a partir de várias formas de existir. Podemos ainda sofrer com as violência, mas saibam que vocês são os/as agressores/as. Enquanto vocês pensam em maneiras de nos atingir, nós investimos nosso tempo em vida, em criar estratégias para viver bem e bem viver. Vejo mais dignidade em estar ao lado de quem se compromete com a vida e não com a violência. E cá entre nós, que potência de vida nós somos, hein?! INSTAGRAM MEU CANAL NO YOUTUBE



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