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Transformadores

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Fonte:

05/08/22

Somos Diversidade

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Sou Motion Designer. Eu estudei Rádio e TV e desde sempre sabia que queria atuar na área de pós-produção, então logo fui para edição de vídeo. Trabalhei 3 anos em um canal de TV com foco em esportes, até que decidi estudar animação, que era meu sonho desde sempre. Comecei a trabalhar em uma produtora de filmes como motion designer e depois fui pra uma agência de publicidade gigante. Quando entrei nessa agência, eu não estava confortável com meu nome e gênero, mas ainda não sabia como expressar isso, então não consegui me colocar e era tratado pelo nome de batismo. Depois de um ano apareceu uma oportunidade de iniciar uma equipe de motion em outra agência, o que me assustou um pouco, porque tinha medo de não estar preparado, mas aceitei o desafio. No primeiro mês nessa agência, eu conversei com o RH pedindo para usar meu nome social. No mesmo dia eles mudaram meu e-mail e sempre fui muito respeitado por toda a empresa, fiquei um ano lá. Saí desse emprego no meio do ano passado e estava retificando meu nome e gênero nos documentos quando apareceu mais uma proposta assustadora: entrar pra uma empresa do mercado financeiro. Ainda não tinha nem começado a terapia hormonal e fiquei inseguro de ir para um ambiente tão diferente, sem saber como as pessoas reagiriam a minha presença, mas posso dizer que aceitar essa proposta foi um grande acerto na minha vida. Estou tendo a chance de usar meu privilégio pra levar a minha vivência a pessoas que nunca tinham conhecido uma pessoa trans até então e espero abrir portas para que mais pessoas como eu tenham oportunidades nessa empresa. Quais as maiores conquistas e os maiores desafios em sua vida/carreira? Acredito que cada uma das minhas experiências profissionais trouxe um grande desafio. Como editor de vídeo tive a oportunidade de cobrir grandes eventos do futebol brasileiro e ver tudo que eu fazia passar na TV, o que é uma baita conquista pra um estagiário! Depois, na minha primeira oportunidade como motion designer, tive o prazer de trabalhar em produções do nacionais (se era incrível ver o meu nome nos créditos da TV, imagina nos créditos da Netflix ou do cinema). Quando fui pra agência, participei de projetos que ganharam alguns dos prêmios mais cobiçados do mundo da publicidade, coisa que eu nunca imaginei que aconteceria. Depois disso, o desafio foi assumir uma área, ou seja, eu era responsável por absolutamente tudo, sem ninguém que soubesse me ajudar caso eu não pudesse resolver algum problema. Nesse mesmo emprego, tive depois uma assistente, outra conquista incrível de poder instruir alguém e auxiliar em qualquer obstáculo. Finalizando, no meu emprego atual houve uma mudança de realidade, saindo da zona de conforto de produtoras e agências de publicidade, que têm fama de serem áreas mais abertas a diversidade, e enfrentar o mercado financeiro. Mas o maior desafio que tive até agora foi uma roda de diversidade que eu fui convidado a participar, onde pude contar a minha trajetória e dividir meus sentimentos com a equipe. Acreditem, nada foi tão emocionante quanto sentar na frente de todo o marketing e contar como foi me descobrir, me assumir pra minha família, usar o banheiro masculino… enfim, trazer a minha realidade pra todas aquelas pessoas e depois ser parabenizado e receber abraços sinceros, ouvir que sou uma inspiração. Essa foi, sem sobra de dúvidas, minha maior conquista até aqui. Ser uma pessoa trans foi dificultador ou não teve importância nesta sua trajetória? Eu sou muito privilegiado, por isso acredito que ser uma pessoa trans não dificultou a minha trajetória. Eu tive o privilégio de fazer uma faculdade e depois um curso para me especializar na área do meu interesse e conheci pessoas incríveis nesse caminho. Tive sempre respeito dos meus pais, além da sorte de atuar em uma área onde diversidade é vista como um objetivo (ainda que longe de ser atingido). Hoje estou 100% confortável e me coloco como homem trans em todos os momentos do meu dia, sempre trazendo essa pauta para conversas. Para as pessoas e profissionais trans, que recado você deixaria? Estude. Por mais difícil que seja, temos que estar sempre muito mais preparados que os outros para termos nossa chance. Encontre outros profissionais trans para se inspirar neles e ocupe os espaços. Nunca pense “esse lugar não é pra mim”, você pode estar onde você quiser e se nenhuma pessoa trans esteve lá, seja a primeira, e traga a segunda. Eu sei que parece papo de coach, mas nós temos que ser fortes e fazer de tudo pra mudar essa sociedade que insiste em nos excluir. Para a sociedade, qual recado você deixaria? Saiam das suas bolhas e escutem outras narrativas. Deem oportunidades justas e procurem de fato as pessoas. Eu entendo a segurança que indicações trazem, por exemplo, mas isso pode deixar a equipe toda igual, com pessoas da mesma faculdade, mesmo ciclo social, mesmas referências e vivências muito parecidas… Use ferramentas diferentes para contratação e, mais uma vez, ouça as pessoas. Foi muito bom pra mim ter a oportunidade de dividir minha história no trabalho porque ninguém nem imaginava medos “básicos” da vida de uma pessoa trans como usar o banheiro, ou o pavor quando escuta o nome de batismo. A máxima do “não faça com o outro o que não quer que façam com você” não funciona, o outro tem traumas e inseguranças que você nem imagina, mas às vezes você só precisa perguntar pra ficar sabendo. INSTAGRAM CANAL DO LE NO YOUTUBE



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