.

.

Transformadores

.

Post 88

.

.

Postado:

Fonte:

05/08/22

Somos Diversidade

.

Iniciei minha carreira profissional (no mercado formal) aos 18 anos de idade quando fiz a minha primeira entrevista de emprego para uma loja de um grande shopping de salvador e por diversas vezes e em diversas lojas não era selecionada. Entendi que era por transfobia e esperava 15 dias há um mês e retornava nas mesmas lojas para fazer a mesma entrevista mas dessa vez “vestida de homem” e assim, era selecionada e tive minhas primeiras experiências no mercado formal. Acontece que nunca aguentava me esconder atrás de vestes lidas como masculinas por muito tempo e, aos poucos quando ia me integrando no ambiente e batendo metas de vendas (sempre como vendedora) imaginava que poderia soltar os cabelos que só andavam amarrados e colocar roupas mais femininas porque já estaria empregada e o que importava seria a minha competência e não minha identidade de gênero. Me enganei por diversas vezes. Essas experiências só existiram por cada empresa em minha vida de três meses a no máximo um ano pois em todas, passava sempre a receber uma desculpa da demissão como corte de funcionários ou recursos da empresa. Essa tranfobia velada sempre me deixava impotente até mesmo para tentar comprovar um caso de transfobia. Em um desses trabalhos de venda, encontrei uma promotora de uma faculdade particular que anunciava e solicitava inscrições para as pessoas fazerem vestibular e ingressar por meio do Financiamento estudantil-FIES. Foi a partir daí que pude encontrar ao menos estágios que me aceitasse enquanto a mulher que sou e hoje estou atuando em uma das maiores instituições públicas de justiça social do Estado da Bahia: Defensoria Pública do Estado da Bahia. Quais as maiores conquistas e os maiores desafios em sua vida/carreira? As maiores conquistas foram abrir espaços com o pioneirismo em diversas áreas e espaços: Ser a primeira mulher trans a se tornar psicóloga na cidade de Salvador, ser a primeira mulher trans a estrelar na campanha e divulgação da parada LGBT da Bahia trazendo pela primeira vez na história das paradas baianas a inserção e permanência de mulheres trans e travestis em suas campanhas e holofotes contribuindo para a repaginação de parada gay para parada LGBT, em ser a primeira mulher trans a se tornar vice presidenta do conselho Estadual dos Direitos da População LGBT do Estado da Bahia, em ser a primeira mulher trans a entrar no programa de pós-graduação em estudos étnicos e africanos da Universidade Federal da Bahia e a atuar da Defensoria Pública do Estado da Bahia. Enfim, em ter sido expulsa de casa aos 13 anos de idade, viver na prostituição até os 17, conseguir conciliar com os estudos e construir todo esse caminho, sabemos que isso não é fácil e é para poucas. É preciso ter garra e força. Meus maiores desafios foram e continuam sendo ter que provar o tempo todo que sou capaz. É que me dei conta de que vivo em uma sociedade que tenta me deslegitimar o tempo inteiro, que não aceita que eu force a barra para sair da marginalidade e com isso tenho grandes problemas no dia a dia quando homens me param pela rua e me perguntam quanto é o programa, no ambiente de trabalho quando sou lembrada de que tenho que ser agradecida e que tenho que fazer por onde para permanecer no espaço, na academia quando tenho minha escrita deslegitimada por professores que negam a capacidade da escrita sobre mim mesma ou sobre nossa população, no movimento de travestis e transexuais quando passo a ser sabotada por estar tendo destaques que as companheiras julgam ser demais e a partir disso não contam mais comigo e passam a me excluir dos espaços, por um outro lado, de ter que viver pedindo respeito aos novos grupos não identitários que, para firmar os seus espaços, forçam a deslegitimação de quem é uma pessoa trans e/ou travesti identitária binária, como eu. Esses são exemplos de desafios diários que não para, apenas ganham novas sustentações na opressão. Ser uma pessoa trans foi dificultador ou não teve importância nesta sua trajetória? Foi dificultador e sempre teve importância que levou das dificuldades à mulher que sou hoje. Como bem diz o nome do projeto “TransformaDOR” e é isso que tendo fazer todos os dias da minha vida. Foi por ser trans que fui expulsa de casa aos 13 anos de idade porque se fosse gay, como fui alertada, não teria tantos problemas. Mas ao mesmo tempo, posso afirmar que se não fosse uma pessoa trans, certamente não teria contribuído tanto para a evolução dessa sociedade. Vivo lutando, desmistificando o que se sentem por trans e travesti, reescrevendo história, empoderando vidas, trabalhando com educação em direitos humanos enfim, sendo um agente de transformação social. Foi a dor que me levou a ser o que sou e hoje vivo transformando a dor em vitórias. Para as pessoas e profissionais trans, que recado você deixaria? Que possamos nos respeitar, analisar convergências e deixar nossas divergias de lado. Que possamos, mais do que nunca, lutar pelos nossos direitos, apoiar pessoas trans, incentivar, levantar a estima e encorajar. Sempre senti muito falta disso dentro da própria comunidade trans. Para a sociedade, qual recado você deixaria? Empreguem pessoas trans. Parem de nos matar. Parem de nos erotizar, de querer competir conosco, de invejar, de difamar, de prejudicar de excluir. A nossa identidade de gênero diz respeito a nós mesmas e se a cisheterossexualidade é normal, é bom que reflitam porque se sentem tão incomodada com a nossa existência e de outras identidades que destoam da norma. Não queremos destruir a família de ninguém, queremos apenas construir a nossa. Vocês deixam? INSTAGRAM FACEBOOK Conheça mais sobre Ariane nesta reportagem em http://especiais.correiobraziliense.com.br/a-trajetoria-de-superacao-de-uma-transexual-brasileira E também vendo o vídeo abaixo:



Compartilhar esta página
 

  • Whatsapp
  • Instagram
  • Facebook
  • Twitter
  • LinkedIn


Conteúdo relacionado
 

.

.